Leituras:
Mateus 12:43–45;
João 8:31–36;
João 14:6,23;
Efésios 3:14–19; Colossenses 2:6–10
"Quando o espírito imundo sai do homem, anda por lugares áridos procurando repouso, porém não encontra. Por isso, diz: Voltarei para minha casa, donde saí. E, tendo voltado, a encontra vazia, varrida e ornamentada. Então, vai e leva consigo outros sete espíritos, piores do que ele; e, entrando, habitam ali; e o último estado daquele homem torna-se pior do que o primeiro."
(Mateus 12:43–45)
"Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres."
(João 8:36)
Quando aproximamos essas duas passagens, percebemos que o Senhor Jesus está revelando um mesmo propósito por ângulos diferentes. Em Mateus 12, Ele mostra o perigo de uma casa vazia; em João 8, revela quem é o único capaz de ocupá-la. A resposta para a casa desocupada não é um esforço maior do homem, mas a habitação permanente do Filho de Deus.
A casa de Mateus 12 estava varrida e ornamentada. Havia ordem, havia mudança, havia sinais visíveis de transformação. Contudo, permanecia vazia. O Senhor não chama a atenção para o estado da casa, mas para a ausência do seu verdadeiro Morador. O vazio, e não a desordem, era o maior perigo.
Essa palavra toca o próprio coração do propósito eterno de Deus. O homem nunca foi criado para existir de forma independente. Desde o princípio, Deus o formou para ser Sua morada. O coração humano possui um espaço que nenhuma reforma exterior, disciplina espiritual, conhecimento bíblico ou experiência religiosa pode ocupar. Esse lugar pertence somente a Cristo.
Aquilo que era apenas figura no tabernáculo e, posteriormente, no templo, encontra seu cumprimento na Nova Aliança. Deus já não procura uma casa feita por mãos humanas, mas um povo no qual Seu Filho habite pelo Espírito. O coração regenerado torna-se o verdadeiro santuário onde Deus manifesta Sua presença. Por isso, o Senhor declara: "Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada." (João 14:23). O propósito da redenção sempre foi conduzir o homem à comunhão permanente com Deus.
É por isso que, em João 8, Jesus conduz Seus discípulos além do entendimento intelectual da verdade. Primeiro, afirma que a verdade liberta. Depois, revela que a Verdade é uma Pessoa. Finalmente declara: "Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres." A liberdade não é produzida apenas porque algo foi removido da vida, mas porque Alguém passou a habitá-la.
Aqui encontramos uma das maiores revelações do evangelho. Deus não deseja apenas libertar o homem do pecado; deseja comunicar ao homem a vida do Seu Filho. O propósito da cruz não termina quando as cadeias são quebradas. Ele alcança sua plenitude quando Cristo encontra um lugar para habitar, governar e manifestar Sua própria vida em nós.
Por isso Paulo ora para que Cristo habite, pela fé, em nossos corações. Não se trata de uma visita ocasional, mas de uma residência permanente. Aos colossenses, ele exorta que continuem andando n'Aquele que receberam, porque toda a plenitude de Deus está em Cristo, e somente permanecendo n'Ele a casa permanece cheia.
Watchman Nee mostrava que Deus não veio aperfeiçoar o velho homem, mas introduzir nele a vida do Último Adão, O Espírito vivificante.
T. Austin-Sparks via toda a obra do Espírito convergindo para um único alvo: ampliar o terreno de Cristo dentro do coração do Seu povo. Andrew Murray lembrava que toda verdadeira santidade nasce da permanência de Cristo naquele que aprende, dia após dia, a render-se ao Seu governo.
Quantas vezes alguém abandona determinados pecados, rompe hábitos antigos ou experimenta alguma libertação, mas continua vivendo de si mesmo. A casa permanece limpa, porém vazia. Há menos trevas, mas ainda não há a plenitude da Luz. Há menos domínio do pecado, mas ainda não há pleno governo de Cristo. Nessa condição, a vida permanece vulnerável, porque Deus nunca pretendeu apenas esvaziar o homem do mal; Seu propósito sempre foi enchê-lo do Seu Filho.
O Espírito Santo trabalha precisamente nessa direção. Ele não atua apenas expulsando aquilo que é contrário a Deus; trabalha conformando-nos à imagem de Cristo. Pouco a pouco, o Senhor ocupa nossos pensamentos, governa nossos afetos, transforma nossa vontade e faz do coração humano um lugar onde Sua presença encontra descanso.
Assim, Mateus 12 e João 8 se iluminam mutuamente. A casa vazia revela a insuficiência de uma vida apenas reformada. João 8 apresenta a resposta divina: o Filho habitando no homem. A verdadeira liberdade não consiste apenas em estar livre das cadeias, mas em viver sob o senhorio dAquele que é a Verdade e a Vida.
A plenitude da vida cristã não consiste simplesmente em vencer o pecado, mas em permitir que Cristo ocupe cada compartimento do nosso ser. À medida que Sua vida cresce em nós, o velho homem perde terreno, não porque travamos uma luta interminável para aperfeiçoar a carne, mas porque a luz naturalmente dissipa as trevas. A vida de Cristo substitui, pouco a pouco, aquilo que antes era governado pelo ego, pelo pecado e pela independência.
Quanto mais Cristo ocupa a casa, menos espaço resta para tudo aquilo que antes nos governava. Sua presença preserva a liberdade, guarda o coração e faz da vida humana uma expressão da própria vida de Deus.
O propósito eterno do Pai nunca foi apenas arrancar o homem do império das trevas, mas fazer dele Sua morada. A casa encontra descanso quando pertence ao seu verdadeiro Senhor, e a liberdade alcança sua plenitude quando Cristo deixa de ser apenas Aquele que visita e passa a ser Aquele que permanece.
Que o Espírito Santo amplie continuamente o espaço de Cristo em nosso interior, até que cada pensamento, cada afeto, cada decisão e cada palavra expressem a vida do Filho. Este é o alvo da redenção: que Cristo seja tudo em nós, e que nossa vida se torne uma habitação cada vez mais ampla para a manifestação da Sua glória.
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