domingo, 9 de agosto de 2026

A Carta de Judas

 


Quando a fé é vivida antes de ser defendida


Antes de falar de luta, Judas fala de vida.


Antes de alertar sobre corrupção, ele percebe algo mais simples e direto: uma desconexão por dentro.


A carta foi escrita num tempo em que a igreja era simples.


Não havia estruturas, nem sistemas organizados como surgiram depois.


As comunidades eram simples, elas tinham suas reuniões nas casas.


Mas o problema estava começando — não por fora, mas por dentro.


A vida com Deus estava sendo substituída por práticas religiosas vazias,

algo que Epístola aos Gálatas 3:3 já aponta: começar no Espírito e terminar na carne.


Com o tempo, quando a vida interior enfraquece, surge a tendência de tentar sustentar tudo com formas externas: cargos, títulos, posições, estruturas.

Isso mantém uma aparência, mas não resolve a raiz.


Porque a igreja não é, em sua essência, uma instituição ou uma organização religiosa.


Ela é um organismo vivo — formado por pessoas que buscam viver de fato a vida de Cristo.


Mesmo naquele início, começaram a surgir pessoas capazes, boas de fala, influentes,

mas que já não viviam sob o governo de Deus no íntimo.


Esse é o pano de fundo da carta.


Não eram inimigos de fora,

mas gente de dentro que mantinha a linguagem certa, sem a mesma realidade de vida.


Por isso Judas escreve como irmão.


Ele entende que o maior perigo não começa fora,

mas quando a fé deixa de ser vivida no dia a dia

e passa a ser apenas uma posição que se assume.


Quando existe zelo,

mas falta direção real de Deus.


É nesse contexto que ele diz:


> “Lutem pela fé.”




Mas não por ideias,

nem por discussões,

nem por práticas externas sem vida.


É a fé que foi entregue aos santos —

uma vida com Deus, vivida na prática.


Lutar por essa fé não é falar mais alto ou impor regras.


É viver de forma coerente,

de modo que a própria vida preserve o que é verdadeiro.


Aqui está um ponto importante:


quando a vida interior não sustenta,

qualquer ação exterior perde força.


Foi assim ao longo da história:


— Israel tinha promessas, mas se afastou de Deus

— Anjos tinham posição, mas perderam dependência

— Sodoma tinha prosperidade, mas perdeu limites

— Caim ofereceu culto, mas sem comunhão

— Balaão tinha dom, mas sem temor


Em todos esses casos, o problema começou por dentro,

antes de aparecer por fora.


Por isso Judas não propõe criar novos sistemas.

Ele não fala de controle externo.


Ele aponta um caminho simples:


voltar à vida com Deus.


Fortalecer a fé que se vive.

Orar de forma sincera.

Permanecer no amor de Deus na prática.

Tratar as pessoas com misericórdia.


A igreja não se perde quando enfrenta dificuldades externas.

Ela se enfraquece quando troca vida por atividade,

comunhão por rotina,

fé viva por aparência.


Mas é também aí que começa a restauração:


quando há um retorno ao essencial.


Quando a fé volta a ser vivida no dia a dia,

o que estava enfraquecido começa a se ajustar.


Porque uma vida real com Deus

faz o que nenhuma estrutura consegue substituir.


O VALE NÃO É O FIM DA PRESENÇA. É ONDE ELA SE TORNA MAIS PRECIOSA

 

Leituras: Salmo 23:4; João 10:11–15; Hebreus 13:5


«“Ainda que eu ande pelo vale da mais profunda escuridão, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam.”

(Salmo 23:4)»


Há um detalhe precioso neste salmo que facilmente passa despercebido.


Até o versículo três, Davi fala sobre Deus:


"Ele me faz repousar..."


"Ele me guia..."


"Ele restaura a minha alma..."


Mas, ao entrar no vale, algo muda.


Davi deixa de falar sobre o Senhor.


E passa a falar diretamente com o Senhor:


«"Tu estás comigo."»


Essa mudança não é casual.


Ela revela que, muitas vezes, é justamente nas horas mais difíceis que a comunhão com Deus se torna mais profunda.


O vale não afasta o Pastor.


Faz Sua presença tornar-se ainda mais preciosa.


A mais profunda escuridão não transforma Deus.


Transforma nossa percepção dEle.


Nos dias tranquilos, reconhecemos Suas dádivas.


Nos dias de aflição, aprendemos a valorizar Sua companhia.


Davi não afirma que o vale desaparece.


Também não diz que o mal deixa de existir.


O que muda é a certeza de que o Pastor continua presente.


Toda a coragem do salmista repousa nessa simples declaração:


«"Tu estás comigo."»


Mais adiante, ele acrescenta:


«“Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos.”

(Salmo 23:5)»


A mesa não é preparada depois que os inimigos desaparecem.


Ela é preparada enquanto eles ainda estão presentes.


Assim também acontece na caminhada da fé.


O Senhor nem sempre remove imediatamente aquilo que nos faz sofrer.


Mas jamais deixa de sustentar aqueles que Lhe pertencem.


Sua provisão não depende da ausência das lutas.


Depende da fidelidade do Pastor.


Essa verdade alcança sua plena revelação em Cristo.


No Evangelho de João, Jesus declara:


«“Eu sou o bom pastor.”

(João 10:11)»


Ele não permaneceu distante do vale.


Entrou nele.


Assumiu sobre Si o peso do pecado, da morte e do juízo para que Suas ovelhas jamais fossem abandonadas.


Porque o Bom Pastor atravessou o vale por nós, podemos caminhar confiantes, sabendo que Sua presença nos acompanha.


Como escreveu T. Austin-Sparks, Deus frequentemente realiza Sua obra mais profunda em nós não quando tudo está tranquilo, mas quando aprendemos a depender inteiramente da suficiência de Cristo.


E Andrew Murray lembrava que a verdadeira paz não nasce da ausência das provações, mas da permanência da presença de Deus.


Nossa segurança nunca esteve na ausência da escuridão.


Está na presença dAquele que venceu as trevas.



Senhor, quando os vales parecerem longos e a esperança enfraquecer, lembra-nos de que Tua presença é maior do que os nossos temores.


Ensina-nos a confiar em Ti não apenas nos dias de descanso, mas também nas horas de aflição.


Que nossos olhos permaneçam fixos em Cristo, o Bom Pastor, que conhece Suas ovelhas, caminha com elas e jamais as abandona.


Em nome de Jesus.


Amém.


A CASA OCUPADA POR CRISTO

 


Leituras: 


Mateus 12:43–45; 

João 8:31–36; 

João 14:6,23; 

Efésios 3:14–19; Colossenses 2:6–10


"Quando o espírito imundo sai do homem, anda por lugares áridos procurando repouso, porém não encontra. Por isso, diz: Voltarei para minha casa, donde saí. E, tendo voltado, a encontra vazia, varrida e ornamentada. Então, vai e leva consigo outros sete espíritos, piores do que ele; e, entrando, habitam ali; e o último estado daquele homem torna-se pior do que o primeiro."


(Mateus 12:43–45)


"Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres."


(João 8:36)


Quando aproximamos essas duas passagens, percebemos que o Senhor Jesus está revelando um mesmo propósito por ângulos diferentes. Em Mateus 12, Ele mostra o perigo de uma casa vazia; em João 8, revela quem é o único capaz de ocupá-la. A resposta para a casa desocupada não é um esforço maior do homem, mas a habitação permanente do Filho de Deus.


A casa de Mateus 12 estava varrida e ornamentada. Havia ordem, havia mudança, havia sinais visíveis de transformação. Contudo, permanecia vazia. O Senhor não chama a atenção para o estado da casa, mas para a ausência do seu verdadeiro Morador. O vazio, e não a desordem, era o maior perigo.


Essa palavra toca o próprio coração do propósito eterno de Deus. O homem nunca foi criado para existir de forma independente. Desde o princípio, Deus o formou para ser Sua morada. O coração humano possui um espaço que nenhuma reforma exterior, disciplina espiritual, conhecimento bíblico ou experiência religiosa pode ocupar. Esse lugar pertence somente a Cristo.


Aquilo que era apenas figura no tabernáculo e, posteriormente, no templo, encontra seu cumprimento na Nova Aliança. Deus já não procura uma casa feita por mãos humanas, mas um povo no qual Seu Filho habite pelo Espírito. O coração regenerado torna-se o verdadeiro santuário onde Deus manifesta Sua presença. Por isso, o Senhor declara: "Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada." (João 14:23). O propósito da redenção sempre foi conduzir o homem à comunhão permanente com Deus.


É por isso que, em João 8, Jesus conduz Seus discípulos além do entendimento intelectual da verdade. Primeiro, afirma que a verdade liberta. Depois, revela que a Verdade é uma Pessoa. Finalmente declara: "Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres." A liberdade não é produzida apenas porque algo foi removido da vida, mas porque Alguém passou a habitá-la.


Aqui encontramos uma das maiores revelações do evangelho. Deus não deseja apenas libertar o homem do pecado; deseja comunicar ao homem a vida do Seu Filho. O propósito da cruz não termina quando as cadeias são quebradas. Ele alcança sua plenitude quando Cristo encontra um lugar para habitar, governar e manifestar Sua própria vida em nós.


Por isso Paulo ora para que Cristo habite, pela fé, em nossos corações. Não se trata de uma visita ocasional, mas de uma residência permanente. Aos colossenses, ele exorta que continuem andando n'Aquele que receberam, porque toda a plenitude de Deus está em Cristo, e somente permanecendo n'Ele a casa permanece cheia.


Watchman Nee mostrava que Deus não veio aperfeiçoar o velho homem, mas introduzir nele a vida do Último Adão, O Espírito vivificante. 

T. Austin-Sparks via toda a obra do Espírito convergindo para um único alvo: ampliar o terreno de Cristo dentro do coração do Seu povo. Andrew Murray lembrava que toda verdadeira santidade nasce da permanência de Cristo naquele que aprende, dia após dia, a render-se ao Seu governo.


Quantas vezes alguém abandona determinados pecados, rompe hábitos antigos ou experimenta alguma libertação, mas continua vivendo de si mesmo. A casa permanece limpa, porém vazia. Há menos trevas, mas ainda não há a plenitude da Luz. Há menos domínio do pecado, mas ainda não há pleno governo de Cristo. Nessa condição, a vida permanece vulnerável, porque Deus nunca pretendeu apenas esvaziar o homem do mal; Seu propósito sempre foi enchê-lo do Seu Filho.


O Espírito Santo trabalha precisamente nessa direção. Ele não atua apenas expulsando aquilo que é contrário a Deus; trabalha conformando-nos à imagem de Cristo. Pouco a pouco, o Senhor ocupa nossos pensamentos, governa nossos afetos, transforma nossa vontade e faz do coração humano um lugar onde Sua presença encontra descanso.


Assim, Mateus 12 e João 8 se iluminam mutuamente. A casa vazia revela a insuficiência de uma vida apenas reformada. João 8 apresenta a resposta divina: o Filho habitando no homem. A verdadeira liberdade não consiste apenas em estar livre das cadeias, mas em viver sob o senhorio dAquele que é a Verdade e a Vida.


A plenitude da vida cristã não consiste simplesmente em vencer o pecado, mas em permitir que Cristo ocupe cada compartimento do nosso ser. À medida que Sua vida cresce em nós, o velho homem perde terreno, não porque travamos uma luta interminável para aperfeiçoar a carne, mas porque a luz naturalmente dissipa as trevas. A vida de Cristo substitui, pouco a pouco, aquilo que antes era governado pelo ego, pelo pecado e pela independência.


Quanto mais Cristo ocupa a casa, menos espaço resta para tudo aquilo que antes nos governava. Sua presença preserva a liberdade, guarda o coração e faz da vida humana uma expressão da própria vida de Deus.


O propósito eterno do Pai nunca foi apenas arrancar o homem do império das trevas, mas fazer dele Sua morada. A casa encontra descanso quando pertence ao seu verdadeiro Senhor, e a liberdade alcança sua plenitude quando Cristo deixa de ser apenas Aquele que visita e passa a ser Aquele que permanece.


Que o Espírito Santo amplie continuamente o espaço de Cristo em nosso interior, até que cada pensamento, cada afeto, cada decisão e cada palavra expressem a vida do Filho. Este é o alvo da redenção: que Cristo seja tudo em nós, e que nossa vida se torne uma habitação cada vez mais ampla para a manifestação da Sua glória.


MARIA ACHOU-SE GRÁVIDA DO ESPÍRITO SANTO

 


Leituras: 

Mateus 1:18–23; 

Lucas 1:34–35; 

João 1:1–18; 

João 14:8–11; Colossenses 1:15–20; Hebreus 1:1–3; 2 Coríntios 13:14.


"Achou-se grávida pelo Espírito Santo."

(Mateus 1:18)


Poucas declarações das Escrituras são tão simples e, ao mesmo tempo, tão profundas quanto esta:


Maria achou-se grávida do Espírito Santo.


Não se trata apenas da descrição de um milagre. Estamos diante de uma das mais elevadas revelações acerca da Pessoa de Cristo e da perfeita unidade do Deus Triúno.


A Bíblia afirma que há um só Deus (Deuteronômio 6:4). Essa verdade jamais foi abandonada pelo Novo Testamento. Os apóstolos não anunciaram três deuses, mas um único Deus, eternamente existente como Pai, Filho e Espírito Santo.


As Escrituras não procuram explicar Deus segundo a lógica humana.


Elas O revelam.


Quando o anjo anunciou o nascimento de Jesus, disse a Maria:


"Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus."

(Lucas 1:35)


Em um único versículo contemplamos o Espírito Santo, o Altíssimo — o Pai — e o Filho.


Não são três manifestações sucessivas de um mesmo ser, nem três deuses independentes.


São três Pessoas divinas que coexistem eternamente e operam inseparavelmente.


Toda obra de Deus manifesta essa perfeita comunhão.


O Pai envia.


O Filho realiza.


O Espírito aplica.


Jamais competem entre Si.


Jamais agem separadamente.


Tudo procede do Pai, por meio do Filho e no Espírito Santo.


Essa harmonia pode ser contemplada desde a criação.


O Pai cria todas as coisas por meio do Verbo (João 1:3), enquanto o Espírito pairava sobre a face das águas (Gênesis 1:2).


Na encarnação acontece o mesmo.


O Pai envia.


O Espírito forma milagrosamente a humanidade de Cristo no ventre de Maria.


E Aquele que nasce é o Filho eterno de Deus revestido da natureza humana.


Por isso, afirmar que Maria concebeu pelo Espírito Santo jamais significa que Jesus seja "filho do Espírito" quanto à Sua origem pessoal.


O Filho não começou a existir em Belém.


Ele é eterno.


João declara:


"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus."

(João 1:1)


Antes de haver Maria.


Antes de existir o mundo.


O Filho já era.


A encarnação não foi o nascimento da divindade, mas a entrada do Filho eterno na história humana, assumindo nossa natureza sem deixar de ser quem eternamente é.


Por isso Isaías O chama Emanuel:


"Deus conosco."

(Mateus 1:23)


Jesus não veio apenas representar Deus.


Ele veio revelá-Lo.


Quando Filipe pediu:


"Senhor, mostra-nos o Pai",


Jesus respondeu:


"Quem me vê a mim vê o Pai... Eu estou no Pai, e o Pai está em mim."

(João 14:8–11)


Essas palavras não anulam a distinção entre Pai e Filho.


Antes revelam a perfeita unidade da natureza divina.


Por isso Jesus também declarou:


"Eu e o Pai somos um."

(João 10:30)


Não apenas um em propósito.


Um em essência.


Um em divindade.


Um em glória.


O autor de Hebreus afirma que Cristo é:


"O resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser."

(Hebreus 1:3)


E Paulo acrescenta:


"Porque, nele, habita corporalmente toda a plenitude da divindade."

(Colossenses 2:9)


Tudo o que Deus é encontra sua perfeita expressão no Filho.


Isso também explica a atuação do Espírito Santo.


O Espírito não fala de Si mesmo.


Seu ministério consiste em glorificar Cristo (João 16:13–15).


Ele toma as riquezas do Filho e as comunica ao Seu povo.


Andrew Murray lembrava que toda verdadeira obra do Espírito conduz inevitavelmente a uma comunhão mais profunda com Cristo. O Espírito nunca ocupa o lugar do Filho; antes, torna o Filho conhecido no coração dos homens.


Da mesma forma, T. Austin-Sparks enfatizava que toda a intenção eterna de Deus converge para que Cristo tenha a preeminência em todas as coisas (Colossenses 1:18). O Espírito trabalha silenciosamente para formar Cristo em nós, conduzindo-nos ao propósito eterno do Pai.


Watchman Nee também observava que jamais podemos separar aquilo que Deus uniu. O Pai planejou nossa redenção. O Filho a consumou na cruz. O Espírito a torna uma experiência viva dentro de nós. Não são três obras independentes, mas uma única obra do Deus eterno.


Essa unidade aparece novamente na bênção apostólica:


"A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós."

(2 Coríntios 13:14)


Não encontramos aqui três fontes de bênção.


Encontramos um único Deus comunicando Sua própria vida ao homem.


O Pai é a fonte.


O Filho é a perfeita revelação dessa graça.


O Espírito nos introduz nessa comunhão.


Assim, quando lemos que Maria achou-se grávida do Espírito Santo, contemplamos muito mais do que um nascimento milagroso.


Contemplamos o Deus eterno realizando Seu propósito de redenção.


O Pai envia Seu Filho amado.


O Filho eterno assume nossa humanidade.


O Espírito prepara um corpo para Aquele que seria o Cordeiro de Deus.


Tudo acontece em perfeita unidade.


Tudo revela um único Deus.


Tudo converge para Cristo.


Porque, desde o princípio até a consumação, toda a revelação das Escrituras aponta para Ele, "a imagem do Deus invisível" (Colossenses 1:15), em quem o Pai Se dá a conhecer e por meio de quem o Espírito comunica a própria vida de Deus ao Seu povo, a Igreja.


O ESPÍRITO PAIRAVA SOBRE AS ÁGUAS

 


Leituras: Gênesis 1:2; Deuteronômio 32:10–12; João 3:5–8; Tito 3:4–7; Romanos 8:9–16; 2 Coríntios 3:17–18


A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas.

(Gênesis 1:2)


Antes que a luz brilhasse, o Espírito de Deus já estava presente.


Antes que a terra produzisse vida, antes que qualquer forma aparecesse e antes que a ordem substituísse aquilo que estava sem forma e vazio, o Espírito pairava sobre as águas.


Essa é uma das primeiras grandes revelações das Escrituras acerca da maneira como Deus opera.


Ele se move onde ainda não vemos resultado.


Ele trabalha onde ainda não existe beleza aparente.


Ele está presente antes que a vida se torne visível.


A palavra usada por Moisés para descrever o Espírito “pairando” transmite a ideia de um movimento cuidadoso e cheio de vida. 

Mais tarde, o próprio Moisés empregaria expressão semelhante ao falar da águia que paira sobre seus filhotes (Dt 32:11).


Não encontramos, portanto, uma presença indiferente diante do caos. 

O Espírito de Deus está ativo sobre aquilo que ainda se encontra sem forma e vazio.


Há trevas.


Há profundidade.


Há ausência de forma.


Mas há também o Espírito de Deus.


E isso muda tudo.


C. H. Mackintosh, ao considerar os primeiros versículos de Gênesis, chama atenção para um princípio que atravessa toda a revelação bíblica: Deus não depende de recursos encontrados na criatura para realizar Sua obra. Aquilo que é impossível ao homem não constitui dificuldade para Deus. Sua obra começa Nele mesmo e, por isso, toda a glória retorna a Ele.


Entretanto, devemos primeiro permitir que Gênesis fale dentro de seu próprio contexto.


Moisés está descrevendo a obra de Deus na criação. O versículo não está tratando diretamente da regeneração do homem. Contudo, quando avançamos pelas Escrituras, percebemos que o Novo Testamento emprega a linguagem da criação para nos ajudar a compreender a obra de Deus em nós.


Paulo declara:


Se alguém está em Cristo, é nova criatura.

(2 Coríntios 5:17)


O Deus que operou no princípio é o mesmo Deus que opera na nova criação.


E há uma correspondência preciosa.


Na primeira criação, o Espírito está presente antes que a luz apareça.


Na nova criação, também não é o homem que produz a vida espiritual a partir de seus próprios recursos. É Deus quem toma a iniciativa.


Jesus disse a Nicodemos:


O que é nascido do Espírito é espírito.

(João 3:6)


A vida de Deus somente pode ser produzida por Deus.


Podemos melhorar nossa conduta, adquirir conhecimento religioso e disciplinar nossos hábitos, mas nenhuma dessas coisas pode produzir o novo nascimento.


Carne pode produzir carne.


Somente o Espírito pode produzir aquilo que é do Espírito.


É por isso que Tito descreve nossa salvação como “o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo”.


A vida cristã começa pela ação de Deus.


Mas ela também prossegue pela ação de Deus.


Esse ponto foi profundamente enfatizado por Andrew Murray. Para ele, o Espírito Santo não deveria ser considerado apenas Aquele que inicia a experiência cristã, mas Aquele por meio de quem toda a vida de Cristo se torna realidade no crente.


Não começamos pelo Espírito para depois prosseguirmos pela força natural.


Dependemos Dele desde o princípio até o fim.


T. Austin-Sparks insistia igualmente que a obra do Espírito possui um grande objetivo: revelar Cristo e formar Cristo em Seu povo.


O Espírito não veio para construir uma espiritualidade centrada em experiências, manifestações ou no próprio homem.


Ele veio para tornar Cristo conhecido.


Tudo aquilo que o Espírito verdadeiramente realiza conduz ao Filho.


Ele ilumina Cristo.


Glorifica Cristo.


Comunica a vida de Cristo.


Forma o caráter de Cristo.


Conduz o povo de Deus à conformidade com Cristo.


Por isso Paulo escreveu:


E todos nós [...] somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito.

(2 Coríntios 3:18)


Aqui percebemos algo ainda mais profundo.


O Espírito que pairava sobre aquilo que estava sem forma trabalha agora para produzir forma no povo de Deus.


E essa forma é Cristo.


A finalidade da obra do Espírito não é simplesmente tornar-nos pessoas melhores.


É conformar-nos à imagem do Filho.


Watchman Nee ressaltava frequentemente esse princípio ao mostrar que a vida cristã não consiste essencialmente em imitar Cristo exteriormente, mas em permitir que a vida de Cristo, já comunicada ao crente, encontre expressão por meio dele.


Essa diferença é fundamental.


Uma coisa é tentar viver como Cristo.


Outra é Cristo viver em nós.


Uma depende principalmente de esforço.


A outra depende de vida.


Witness Lee também desenvolveu amplamente essa dimensão da experiência cristã, enfatizando que o Espírito torna real e presente em nós aquilo que Cristo realizou objetivamente por meio de Sua encarnação, morte e ressurreição.


Assim, aquilo que Cristo conquistou por nós torna-se experiência em nós pela operação do Espírito.


Existe ainda uma verdade muito consoladora em Gênesis 1:2.


O Espírito começou a operar quando tudo ainda estava sem forma.


Deus não esperou que a criação estivesse organizada para então aproximar-Se.


Sua presença precedeu a ordem.


Isso toca profundamente nossa experiência.


Muitas vezes pensamos que precisamos primeiro colocar nossa vida em ordem para então nos aproximarmos de Deus.


Tentamos vencer determinadas fraquezas.


Corrigir determinadas áreas.


Organizar nossa vida interior.


E imaginamos que, depois disso, estaremos em condições de caminhar com o Senhor.


Mas o princípio de Deus é exatamente o contrário.


Não organizamos nossa vida para receber Sua presença.


É Sua presença que começa a reorganizar nossa vida.


Cristo não espera que nos tornemos capazes para então comunicar-nos Sua vida.


Ele comunica Sua vida porque somos incapazes de produzi-la.


Por isso não devemos desprezar os pequenos começos da obra de Deus.


O Espírito frequentemente trabalha em profundidade muito antes que os resultados apareçam exteriormente.


Antes da luz, Ele já estava ali.


Antes da forma, Ele já estava ali.


Antes da vida aparecer sobre a terra, Ele já estava ali.


Há períodos em nossa caminhada em que parece haver pouco progresso visível. Contudo, Deus pode estar realizando uma obra profunda que ainda não conseguimos perceber.


A vida interior precede muitas vezes a manifestação exterior.


A raiz cresce antes que o fruto apareça.


E aqui encontramos a preparação para o próximo grande movimento de Gênesis.


O Espírito pairava.


Então Deus falou:


Haja luz.


O Espírito prepara.


A Palavra é pronunciada.


A luz aparece.


Esse princípio atravessará toda a Bíblia.


O Espírito e a Palavra jamais competem entre si. 

O Espírito abre nosso entendimento para a Palavra, e a Palavra revela Cristo ao nosso coração.


Quando o Espírito opera e a Palavra encontra lugar em nós, aquilo que estava em trevas começa a receber luz.


Aquilo que estava vazio começa a ser preenchido.


Aquilo que estava desordenado começa a ser colocado sob o governo de Cristo.


E aquilo que ainda não possuía forma começa, pouco a pouco, a assumir uma única forma diante de Deus:


a forma de Seu Filho.


Assim foi no princípio.


E assim Deus continua trabalhando em Sua nova criação.


O Espírito paira.


A Palavra fala.


A luz surge.


A vida cresce.


E Cristo vai sendo formado em nós, até que aquilo que começou inteiramente pela graça de Deus alcance o propósito para o qual fomos chamados:


sermos conformados à imagem de Seu Filho, para a glória do Pai.


(irmão Junior)

A Carta de Judas

  Quando a fé é vivida antes de ser defendida Antes de falar de luta, Judas fala de vida. Antes de alertar sobre corrupção, ele percebe algo...