Leituras: Gênesis 1:2; Deuteronômio 32:10–12; João 3:5–8; Tito 3:4–7; Romanos 8:9–16; 2 Coríntios 3:17–18
A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas.
(Gênesis 1:2)
Antes que a luz brilhasse, o Espírito de Deus já estava presente.
Antes que a terra produzisse vida, antes que qualquer forma aparecesse e antes que a ordem substituísse aquilo que estava sem forma e vazio, o Espírito pairava sobre as águas.
Essa é uma das primeiras grandes revelações das Escrituras acerca da maneira como Deus opera.
Ele se move onde ainda não vemos resultado.
Ele trabalha onde ainda não existe beleza aparente.
Ele está presente antes que a vida se torne visível.
A palavra usada por Moisés para descrever o Espírito “pairando” transmite a ideia de um movimento cuidadoso e cheio de vida.
Mais tarde, o próprio Moisés empregaria expressão semelhante ao falar da águia que paira sobre seus filhotes (Dt 32:11).
Não encontramos, portanto, uma presença indiferente diante do caos.
O Espírito de Deus está ativo sobre aquilo que ainda se encontra sem forma e vazio.
Há trevas.
Há profundidade.
Há ausência de forma.
Mas há também o Espírito de Deus.
E isso muda tudo.
C. H. Mackintosh, ao considerar os primeiros versículos de Gênesis, chama atenção para um princípio que atravessa toda a revelação bíblica: Deus não depende de recursos encontrados na criatura para realizar Sua obra. Aquilo que é impossível ao homem não constitui dificuldade para Deus. Sua obra começa Nele mesmo e, por isso, toda a glória retorna a Ele.
Entretanto, devemos primeiro permitir que Gênesis fale dentro de seu próprio contexto.
Moisés está descrevendo a obra de Deus na criação. O versículo não está tratando diretamente da regeneração do homem. Contudo, quando avançamos pelas Escrituras, percebemos que o Novo Testamento emprega a linguagem da criação para nos ajudar a compreender a obra de Deus em nós.
Paulo declara:
Se alguém está em Cristo, é nova criatura.
(2 Coríntios 5:17)
O Deus que operou no princípio é o mesmo Deus que opera na nova criação.
E há uma correspondência preciosa.
Na primeira criação, o Espírito está presente antes que a luz apareça.
Na nova criação, também não é o homem que produz a vida espiritual a partir de seus próprios recursos. É Deus quem toma a iniciativa.
Jesus disse a Nicodemos:
O que é nascido do Espírito é espírito.
(João 3:6)
A vida de Deus somente pode ser produzida por Deus.
Podemos melhorar nossa conduta, adquirir conhecimento religioso e disciplinar nossos hábitos, mas nenhuma dessas coisas pode produzir o novo nascimento.
Carne pode produzir carne.
Somente o Espírito pode produzir aquilo que é do Espírito.
É por isso que Tito descreve nossa salvação como “o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo”.
A vida cristã começa pela ação de Deus.
Mas ela também prossegue pela ação de Deus.
Esse ponto foi profundamente enfatizado por Andrew Murray. Para ele, o Espírito Santo não deveria ser considerado apenas Aquele que inicia a experiência cristã, mas Aquele por meio de quem toda a vida de Cristo se torna realidade no crente.
Não começamos pelo Espírito para depois prosseguirmos pela força natural.
Dependemos Dele desde o princípio até o fim.
T. Austin-Sparks insistia igualmente que a obra do Espírito possui um grande objetivo: revelar Cristo e formar Cristo em Seu povo.
O Espírito não veio para construir uma espiritualidade centrada em experiências, manifestações ou no próprio homem.
Ele veio para tornar Cristo conhecido.
Tudo aquilo que o Espírito verdadeiramente realiza conduz ao Filho.
Ele ilumina Cristo.
Glorifica Cristo.
Comunica a vida de Cristo.
Forma o caráter de Cristo.
Conduz o povo de Deus à conformidade com Cristo.
Por isso Paulo escreveu:
E todos nós [...] somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito.
(2 Coríntios 3:18)
Aqui percebemos algo ainda mais profundo.
O Espírito que pairava sobre aquilo que estava sem forma trabalha agora para produzir forma no povo de Deus.
E essa forma é Cristo.
A finalidade da obra do Espírito não é simplesmente tornar-nos pessoas melhores.
É conformar-nos à imagem do Filho.
Watchman Nee ressaltava frequentemente esse princípio ao mostrar que a vida cristã não consiste essencialmente em imitar Cristo exteriormente, mas em permitir que a vida de Cristo, já comunicada ao crente, encontre expressão por meio dele.
Essa diferença é fundamental.
Uma coisa é tentar viver como Cristo.
Outra é Cristo viver em nós.
Uma depende principalmente de esforço.
A outra depende de vida.
Witness Lee também desenvolveu amplamente essa dimensão da experiência cristã, enfatizando que o Espírito torna real e presente em nós aquilo que Cristo realizou objetivamente por meio de Sua encarnação, morte e ressurreição.
Assim, aquilo que Cristo conquistou por nós torna-se experiência em nós pela operação do Espírito.
Existe ainda uma verdade muito consoladora em Gênesis 1:2.
O Espírito começou a operar quando tudo ainda estava sem forma.
Deus não esperou que a criação estivesse organizada para então aproximar-Se.
Sua presença precedeu a ordem.
Isso toca profundamente nossa experiência.
Muitas vezes pensamos que precisamos primeiro colocar nossa vida em ordem para então nos aproximarmos de Deus.
Tentamos vencer determinadas fraquezas.
Corrigir determinadas áreas.
Organizar nossa vida interior.
E imaginamos que, depois disso, estaremos em condições de caminhar com o Senhor.
Mas o princípio de Deus é exatamente o contrário.
Não organizamos nossa vida para receber Sua presença.
É Sua presença que começa a reorganizar nossa vida.
Cristo não espera que nos tornemos capazes para então comunicar-nos Sua vida.
Ele comunica Sua vida porque somos incapazes de produzi-la.
Por isso não devemos desprezar os pequenos começos da obra de Deus.
O Espírito frequentemente trabalha em profundidade muito antes que os resultados apareçam exteriormente.
Antes da luz, Ele já estava ali.
Antes da forma, Ele já estava ali.
Antes da vida aparecer sobre a terra, Ele já estava ali.
Há períodos em nossa caminhada em que parece haver pouco progresso visível. Contudo, Deus pode estar realizando uma obra profunda que ainda não conseguimos perceber.
A vida interior precede muitas vezes a manifestação exterior.
A raiz cresce antes que o fruto apareça.
E aqui encontramos a preparação para o próximo grande movimento de Gênesis.
O Espírito pairava.
Então Deus falou:
Haja luz.
O Espírito prepara.
A Palavra é pronunciada.
A luz aparece.
Esse princípio atravessará toda a Bíblia.
O Espírito e a Palavra jamais competem entre si.
O Espírito abre nosso entendimento para a Palavra, e a Palavra revela Cristo ao nosso coração.
Quando o Espírito opera e a Palavra encontra lugar em nós, aquilo que estava em trevas começa a receber luz.
Aquilo que estava vazio começa a ser preenchido.
Aquilo que estava desordenado começa a ser colocado sob o governo de Cristo.
E aquilo que ainda não possuía forma começa, pouco a pouco, a assumir uma única forma diante de Deus:
a forma de Seu Filho.
Assim foi no princípio.
E assim Deus continua trabalhando em Sua nova criação.
O Espírito paira.
A Palavra fala.
A luz surge.
A vida cresce.
E Cristo vai sendo formado em nós, até que aquilo que começou inteiramente pela graça de Deus alcance o propósito para o qual fomos chamados:
sermos conformados à imagem de Seu Filho, para a glória do Pai.
(irmão Junior)